Lembrança e Reflexão diante do Universo de AnaVaz


 
Jaci Bezerra
(1977)
 
À frente do universo construído por Ana Elizabeth Vaz, a memória recupera para os olhos, sem esfolhar razões que justifiquem a recordação, o realismo lírico de certa novela inglesa em que um garoto tenta capturar a lua. Criativamente, e utilizando uma tina cheia d’água, o garoto aprisiona o reflexo maduro do globo terrestre. Ao tocar, porém, no círculo de luz depositado na água transparente, o vê, deformado, escorregar, móvel e belo, entre os nós dos seus dedos. Nessa atmosfera de contos de fada, tocados e movidos pela emoção, o que para nós poderia ser frustração continua, no entanto, a ser deslumbramento. A cena, que nos seduz, inicialmente pelo seu mágico resplendor, nos leva, depois, a desenrolar um comprido novelo de reflexões. E, equilibrados na reflexão, sem que a emoção esqueça o encantamento, examinando e interiorizando as imagens, descobrimos, ao final, um sutil e amargo conjunto de significados.

O alumbramento que os olhos acendem diante da inocência do garoto que aprisiona a lua, é o mesmo alumbramento que escancara os botões dos nossos olhos ao entrarmos no mundo de Ana Elizabeth Vaz. Diante da pintura de Ana, quando os olhos, indenes ainda ao seu contato, a vêem e, a seguir, a percorrem, sentimos que a emoção, seduzida, nasce livre e luminosamente desatada. É incapaz de esconder o seu fascínio por essa linguagem redonda e precisa, que define, objetiva e laminarmente, as pessoas, as coisas, os objetos. Interessa aos olhos, perturbados, abrir todas as portas e janelas desse universo marcado e consumido pela tragédia.

Sobretudo, aos olhos interessa aprofundar, traduzidas as formas e as cores, as indagações sugeridas e provocadas pelo feixe de imagens que o constituem.

Transitando pelo universo criado por Ana Elizabeth Vaz, os olhos percebem e a emoção sente que a pintora realizou uma longa travessia para concretizá-lo. Antes de criar esse mundo que expõe, diante de nós, a angústia e o medo, o espanto e o susto que escondemos, envergonhados e constrangidos, nos nossos sótãos interiores, Ana atravessou as dificuldades de uma floresta de desenhos minuciosamente elaborados; construiu, vigorosa e contundentemente, uma sucessão de quadros que parecem, no seu conjunto, uma ode pintada em louvor dos oprimidos e desesperados.

O riso está sempre ausente nos seres e nas paisagens criados por Ana Elizabeth Vaz, como se fosse, para o homem, uma futilidade ou um luxo desnecessário. Em troca, no universo da pintora correm as asas de uma ironia umedecida no ácido. Também uma sugestão de esperança, embora vaga e débil, como um sopro de vento nascendo e morrendo no silêncio. Uma vela roída pelo desespero.

Decerto, para os olhos, seria mais cômodo pousar sobre cores e paisagens menos amargas. Mas, essas figuras, iluminadas por chamas e luzes inseguras e oscilantes, dramáticas e angustiadas, soturnas e angustiantes, ameaçadoras e ameaçadas, estão mais próximas da nossa amordaçada realidade. Abrem os nossos olhos cegos e muitas vezes narcotizados. Desse modo, são impiedosas, porém necessárias. Talvez porque refletem, com veludosa causticidade e precisão, muitas das situações do homem situado em nosso tempo e em nossa época.