A Lição de Penumbra


 
Heitor O’Dwyer de Macedo
(1988)




Não se aborda a penumbra por meios indiretos. A geometria deste espaço exige retas feitas de metal ou (no mínimo) madeira. E assim se aprende – muito rápido – que contrariamente às aparências, sua matéria não é a sombra, mas o escuro.

O espaço da Penumbra, sem recusar o amor, tem como interlocutores privilegiados a paixão, o inquietante, o desejo, o sexo sem ternura, a certeza da morte, a solidão incontornável e o pensamento tranquilamente vigoroso de quem integrou a verdade de todas estas coisas.

A Penumbra não se pinta com paina nas mãos ou entusiasmos na sensibilidade, mas com a aritmética das linhas nítidas da fotografia. Parida pelo escuro, sua luminosidade rejeita as cores felpudas e sua arquitetura é uma rigorosa determinação dos limites de seu território, e a característica de seu conteúdo é menos a intensidade cromática que o aspecto precário de qualquer vida.

A Penumbra não se define tampouco segundo referenciais de localização como interior/exterior. Sua qualidade, heterogênea a tais categorias, convoca uma intimidade que mostra as marcas de quem atravessou a região sertaneja da alma, região onde se aceita, humildemente o silêncio violento de se estar na existência como um corpo, uma foto de cidade, uma brisa que movimenta os panos, como uma poltrona, lâmpada ou aparelho de TV. E se Ana Vaz não esquece nesta conjugação do real um vaso de flores, é para melhor acentuar o caráter do mundo no qual reflete: este dos objetos fabricados, ou seja, o mesmo que, criado pelos homens a eles se reapresenta agora como um mundo que os transcende e lhes escapa, porque reduzido somente à espessura da existência bruta, fenômeno que ocorre com os objetos separados de sua vida utilitária.

Arrancado a seu quotidiano um objeto se define apenas pela relação espacial que mantém com outros objetos. Através desta relação também se adivinha e se conhece o homem de quem esta organização depende. Existe sempre um pensamento embutido no espaço, mistérios cujos filamentos a Penumbra desenha. Pensar é saber olhar. As asperidades de uma coisa ensinam tanto quanto o poema, desde que se saiba descrevê-las. O exercício do olhar libera o pensamento das facilidades das verdades eternas, confrontando-o às exigências extremas do instante. E o convívio prolongado com a zona de Penumbra que cada um tem dentro de si é uma salutar cura de abstinência da metáfora, abstinência que forja em nós a coragem necessária para acolher o único milagre que legitimamente podemos exigir da vida: o da clara violência do Encontro com a diferença radical do Outro.