Jacob Klintowitz
(1988)
Há só uma janela que esperamos ver aberta e todos, os que estão do lado de cá, aguardam este acontecimento.
Fazemos conjeturas sobre o que está do lado de fora. Sonhamos com este universo pressentido, imaginado, sem referências. É o lado de fora. Ou é o lado de dentro e nós estamos fora?
Alguns temem e esperam a desgraça. Nada de bom haverá lá fora. Ou lá dentro. É iminente a tragédia.
Há os que estão seguros do que os espera do outro lado desse enigma: a janela fatalmente se abrirá. Mas isto não tem qualquer importância, pois os que estão do outro lado não podem nos reconhecer, não sabem de nós e simplesmente não nos podem ver.
É verdade, existem os que, apesar de todos os indícios, mantém a esperança.
Talvez melhor não saber de nada. O nosso dia é só o de hoje e nós nem sabemos se estamos no lá fora ou no interior. Saber?
As janelas fechadas de Ana Vaz. As janelas entreabertas, pouco iluminadas. Os vislumbres do ser humano. Por aqui terá passado um homem. Persianas descidas, afastadas, deixando ver, por vezes, panos coloridos como bandeiras num dia imóvel e sem brisa. Este é o universo da pintura de Ana Vaz. Um mundo entreaberto onde é possível acreditar que haverá um sonho em algum lugar, lá ou aqui.
Ana Vaz investiga o enigma do ser e aponta as sombras fechadas num rígido espaço geometrizado. Visão da cidade, da prisão, do ser encarcerado. O enigma está no ser e na possível relação. O ser está em questão. Há momentos em que um gesto qualquer, uma referência, na parede uma paisagem urbana, um sinal. Ou uma figura que, tudo leva a crer, olha para fora Alguma coisa além de si mesmo. É a única transcendência que esta narração visual nos conta. Sair de si mesmo. Transcender, eis a palavra.
Talvez, na verdade, estejamos tratando de interiores. Transparências de véus, pessoas de costas, vislumbres do ser, sombras humanas, vestígios adivinhados. A primeira visão do inferno, a segunda visão do inferno, a terceira visão do inferno. Persianas semicerradas ou entreabertas. Ana Vaz coloca interrogações.
É esta descrição do sofrimento que a pintura de Ana Vaz estrutura de maneira tão organizada e severa. Formação concretista e persistência do humanismo O desejo onipresente de encontrar o ser. Uma tarefa difícil e surpreendente pela maneira honrada da artista trabalhar: nenhuma concessão ao gosto, nenhum desejo expresso de construir uma ponte agradável. Nada de facilidades. Ana Vaz não quer equívocos. A água é inteiramente da fonte.
Nós estamos verdadeiramente em contato com a arte. Há alguma coisa para ser dito e isto é descoberto na reflexão visual e formalizado. A integridade da forma resulta da inteireza desta proposta. Nada existe fora dela mesmo e nada seria feito se estive ausente o desejo de descobrir, formalizar e novamente se interrogar sobre as significações desta existência cultural. O que passou a existir não é uma resposta, mas uma nova maneira de interrogar. Um grito expresso, claro e sem qualquer tipo de subterfúgio. O mundo inteiriço de Ana Vaz.