Os Noturnos de Ana Vaz


 
Maria de Lourdes Hortas
(1989)


Com a série “Noturnos”, conjunto de dezoito trabalhos (óleo sobre tela) realizados em 1988 Ana Vaz nos dá o privilégio de conhecer sua criação mais recente. Trata-se, à primeira vista, de um desvio no percurso da sua pintura, elegendo formas geométricas rigorosas, jogos de luz e sombra, cores noturnas, temática urbana, onde a presença humana apenas se insinua. Todavia, é justamente aí, nesses “flashes” de eventuais personagens, nessas silhuetas transparentes e sem identidade, que se prolonga a tendência que a sua pintura já nos habituou no acompanhamento do trajeto de sua obra.

Nas duas mostras que precederam os “Noturnos”, o figurativismo de Ana tendia para a representação da silhueta, seus personagens, geralmente distantes ou indefiníveis, surgindo como sombras, ou fantasmas, enquanto à sua volta os objetos eram como agora, sempre nítidos e definidos. Não obstante a diversificação de temática desta mostra, há uma ressonância das anteriores, coerência que não se limita ao deslumbramento do espectador diante da técnica admirável – pureza de formas, nitidez de linhas, harmonia de cores, numa coreografia de opacidade e transparência que nos extasia.

Esse elemento-chave vai incidir na postura da artista em relação à fugacidade da vida: recorrência que se inscreve na forma obsedante dos seres diluídos, ou apenas insinuados, passando pela superfície da tela como se passa pela superfície do mundo, com a velocidade do sopro do vento ou da réstia de luz: captação do movimento enquanto ação do sujeito (ser) que se contrapõe à imobilidade do objeto (não-ser).

Um quadro – inclusive pela própria limitação de espaço onde a representação teatral ou cinematográfica acontece – é sempre uma janela que se abre, ora para uma dimensão captada pela visão e sensibilidade do artista, ora para um universo interior e único, criado a partir do ato de pintar.

Com estes “Noturnos” Ana Vaz não só intensifica como radicaliza a metáfora, a extensão limitada da tela se transfigurando em janela, campo temático eleito para captar a encenação do real, numa convivência e interpenetração de signos mágicos e materiais. Por tudo isso, ao nos debruçarmos sobre estas janelas noturnas, o nosso prazer não se fecha, ou extingue na contemplação meramente estética, ou estática, de uma série de pinturas magistralmente realizadas. A par disso, somos levados à intimidade do mundo contemporâneo, labirintos de individualidade e solidão.

De onde se pode concluir que o trabalho de Ana Vaz não tem vocação meramente decorativa. Pelo contrário: como toda arte verdadeira, a sua contém uma proposta de reinvenção e crítica. Antes, como agora, há em suas telas um envolvimento apaixonado, toda a inquietação do seu espírito. Contestação, denúncia e perplexidade diante de um mundo superpovoado, onde, no entanto, as pessoas se escondem, nos apartamentos, como, em suas cavernas, se escondiam os nossos mais remotos ancestrais, tolhidos pelo medo do ataque das feras.

Esse doloroso realismo – paisagens de cimento, aço e vidro – contemplado pela artista da janela de sua sala/cela, converte-se pela alquimia da sua criatividade e pelo poder de interferência que a arte lhe concede, no surrealismo das esquadrias, persianas e cortinas, testemunhando a incomunicabilidade entre os seres humanos, aparentemente tão próximos e, de fato, tão distantes entre si.

E é justamente através das frestas dessas persianas arquétipos, pelo filtro de gaze dessas cortinas simbólicas, que Ana Vaz deixa escoar toda a luz que a inunda: luz varando as trevas e dissolvendo a bruma, forma pela qual recusa o desencanto.

Luz que é, sempre, a denúncia da presença do ser humano. Luz, paradoxalmente, sombra de alguém, existindo e se movendo dentro da grande noite. Luminosa confirmação de que, por mais árido, desumano e geometrizado que o mundo se torne, a chama da Arte continuará a projetar-se além do túnel, enquanto houver alguém que, diante do desafio solitário da criação, se ordene: fiat-lux.