Ruy Sampaio
(1988)
Descobri uma lei sublime, a lei da
equivalência das janelas e estabeleci que
o modo de compensar uma janela fechada
é abrir outra, a fim de que a moral possa
arejar continuamente a consciência.
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Ao por essas palavras na boca de Brás Cubas, o romancista dá a pincelada definitiva naquela que seria a maior conquista de seu herói: a de uma sábia ambivalência. Em vão renovadas safras de críticos vêm tentando uma explicação para ela: os engajados falam em alienação, os metafísicos em nihilismo, etc. Engenhosos como sejam, nenhuma delas consegue, pela própria natureza reducional de toda explicação, abarcar essa dimensão da ambigüidade machadiana.
Aqui também janelas. Que não se abrem propriamente como as de Brás Cubas para que a moral areje a consciência, mas se entreabrem sutilmente para novas percepções que arejam o discurso. Sim, porque os quadros desta mostra, a primeira que AnaVaz dá no Rio desde que voltou a viver no Brasil, representam uma abertura em sua sintaxe. Aqui temos procedimentos que se incorporam simetricamente a outros que são eliminados. E essa mutação não se passa nos termos do improviso em que o artista não raras vezes escamoteia seus processos da véspera porque descobre que já não são a palavra de ordem em voga, no afã de se fazer atualizado, vanguardista, intelectual.
Ana, ao contrário, continua fiel a um feixe de valores que estão no cerne de sua pintura, desde os tempos em que freqüentou os cursos de Ivan Serpa. Valores de que não abriu mão na Beaux-Arts de Paris, na Fondation pour la Recherche Artistique et Créative, na Figuration Critique e em outros movimentos de que participou. O que veio acontecendo desde seus começos pernambucanos até agora foi uma depuração. Numa carta dos anos setenta ela me dizia da Europa: “aprendo as levezas e delicadezas do pincel”. Aquisição que o próprio amadurecimento profissional a levou a relativizar em benefício de uma solidez cada vez mais ambiciosa enquanto dicção.
O lento e o calculado, trilhos por onde veio ocorrendo esta mudança, testemunham que ela não é uma improvisada correção de rumo, atendendo a gosto de mercado ou ditames da crítica (ambos, aliás, tão mutáveis), mas toda uma reflexão, toda uma necessidade de dialetizar seu imaginário com o espaço do quadro, numa relação mais rica em intensidades, tensões e intenções.
Os pincéis de Ana Vaz continuam leves e delicados. Entretanto, isso já não é (se algum dia realmente o foi) um fim, mas um meio. Antes essas leveza e delicadeza serviam a um discurso fabular – transeuntes do metrô parisiense, em seguida namorados, depois mercados do Recife, logo uma série erótica, passando por banhistas de Copacabana, etc. Agora servem a uma metáfora bem mais subjetiva, algo como uma introspecção, onde o fabulativo não tem mais um papel – um pirandelliano jogo de aparências por trás de aparências. As janelas de AnaVaz não se explicam com recurso a um referencial exterior: se bastam em sua totalidade, como a metafísica das naturezas mortas de Morandi ou dos olhares de Daumier.
Nesta série a pintora já ultrapassa certos procedimentos metafóricos e mesmo seu trabalho mais recente se vale, a partir da eliminação da figura, e, depois dele, as distorções de perspectiva, a espacialização arbitrária em grande-angular. O absurdo já não é uma categoria visível, mas visiva. Seu drama é persuasivo o bastante para dispensar qualquer indicação visual distorcedora ou mais imediatamente verificável. Instaura-se um eixo de percepção que, servido pela convergência de todos os indicadores visuais do quadro – as surpresas da fatura, a elegância da geometria, o descompromisso da composição, as transgressões do cromatismo – não está isoladamente em nenhum deles.
Se antes era possível falar da problemática de seus personagens, cuja leitura, posto que jamais chegassem ao óbvio, oferecia elementos de decifração, agora este caráter de crônica recua para os domínios do impreciso: faz-se atmosfera, velada sugestão. Todo um clima se articula em torno dessas janelas noturnas, cujos interiores dúbios nos aprisionam numa ansiosa sujeição de voyeurs. Em razão dele a paleta rebaixa seus tons; a fatura dispensa os artifícios e se integra despojada (o que não quer dizer menos elaborada), a essa arquitetura rigorosa. A própria luz, de uma exuberância pop na série dos namorados, resolutamente irreal na série dos banhistas e já incorporando uma perturbadora estranheza na série olindense, agora se disciplina num contracanto a boca chiusa. E o mais desconcertante é que apesar dessa contenção (ou por causa dela?) continua a ser irreal e estranha – por outros e mais requintados meios.
E a quem tenha acompanhado o trabalho de Ana Vaz nestes dez anos uma coisa se impõe: seu objeto de representação não mudou. Sua encenação do homem agindo em seus espaços urbanos, o quotidiano de seu lazer, de seu erotismo, de sua ludicidade, a poética de sua perda e de sua impermanência – a solidão heidggeriana do Ser – tudo isto, que já está numa exposição de 1976, quando ela trabalhava com uma apropriação dos mitos gregos, volta a cada mostra. Ficaram para trás a ironia que tomava emprestado aos heróis míticos, a crônica de costumes que lidava com os traumas e clichês das urbes, a tensão que perpassava os idílios. Agora o que ela nos propõe é mesmo ainda mais intrigante que aquela cidade despovoada e arbitrariamente reespacializada de sua última série: são detalhes de fachadas por onde aparecem interiores de onde a figura humana está também ausente. Tudo o que seria banal, puro virtuosismo plástico, proeza realista, se não o animasse o mistério de uma ilegibilidade lógica, reclamando nosso olhar noutro registro que não o da visualidade, mas o da mimese, das analogias, da metalinguagem.
Penetrar esses climas não é tarefa que se esgote no plano da contemplação, mas que demanda o estabelecimento de afinidades eletivas. É antes uma proposta que nos solicita na clave de uma fenomenologia da imagem, da memória seletiva, das equivalências A mim, pessoalmente, ocorreram os lentos planos do primeiro Antonioni, ou certos ritmos reiterativos dos começos do noveau roman. E me ocorreu, sobretudo, diante desses quadros e das analogias que me suscitaram, a sabedoria do Baudelaire de Les couleurs, les parfums et les sons se répondent.
Tal é a magia das janelas de Ana Vaz, a que ela agora assoma tendo transitado esse caminho de coerência não isenta de rupturas e superações, retomando seus personagens e seu enredo em reduções poéticas que são sucessivos refinamentos, de um dizer menos para dizer intensamente, de uma dicção-síntese, de um código pessoal, em suma.
Dispensando, pois, as interpretações tão caras aos que não conseguem ler a pintura senão como suporte de uma verdade qualquer (o que, ao fim, é não-ler a obra de arte) esse trabalho de agora deixa-se colher em sua própria natureza essencial de uma pintura-enquanto-pintura.
O que dizem essas janelas por entre cujas arestas de uma neutra rigidez monocromática a luz avança imaginosamente matizada criando jogos muito fortes entre essa neutralidade (primeiro plano do exterior, onde estamos nós) e esses inquietantes interiores? Interiores onde rege uma paleta que, ao contrário, se permite as suntuosidades e as ousadias mais surpreendentes? Não sei; duvido que algum de nós o saiba; e muito certamente não o saberá a Pintora. Se arriscarmos que elas representam uma fronteira entre o quotidiano apoético e a liberdade infinita do onírico estaremos incorrendo numa leitura reducionista (como a dos explicadores de Brás Cubas) e fechando os olhos ao mais importante desta série que é a afirmação da pintura em sua essencialidade.
Essencialidade que lhe permite conciliar o rigoroso de algumas soluções com o insólito de outras, no que Ana aproxima suas janelas às de Brás Cubas: uma ambigüidade liberadora, polissêmica. Diante dela somente poderemos repetir as sábias palavras de rendição de Eliot perante o inverbalizável: Don’t ask what is it? Come and let`s make our visit.