O Tempo Redescoberto de AnaVaz


 
Ruy Sampaio
(1981)



Acompanhei o trabalho de Ana Vaz desde sua primeira exposição no Rio, em 1977 Mantive com ela uma correspondência – para mim muito valiosa e cuidadosamente arquivada – que se estendeu pelos três anos em que fiquei no Rio e ela veio para Paris aprender as “levezas e delicadezas do pincel” de que me fala numa dessas cartas. Freqüentei, quando passei a morar em Paris, suas exposições na “Maison des Beaux Arts” e na “Fondation pour la Recherche Artistique et Créative”. Essa proximidade do seu trabalho – hoje tão sólido e, já quando ela ainda se iniciava, tão avesso às facilidades do artifício e do efeito – foi uma das coisas mais gratificantes da minha atividade profissional.

E o foi, antes de tudo, porque Ana Vaz manteve, transitando os diferentes registros de sua obra enquanto qualidade plástica, o fundamental de seu discurso: uma densidade de conteúdos inquietos e questionadores, uma recusa de realizar-se tão-somente enquanto marca visual. Sua ascensão não se fez deslumbradamente por rupturas renegadoras do antes, ou cerebralmente por redefinições movidas a teorias e modismos. Passou-se, ao contrário, por um tranqüilo (e tranqüilo aqui não quer dizer menos sofrido, mas mais assumido) esgotamento de linguagens. Tanto quanto pela apropriação de outras, sempre a níveis de auto-exigência mais rigorosos.

Se no Rio, em 1977, já a pude ver plena de ironia e de inventiva manipulando os mitos do universo greco-romano e propondo uma astuciosa superposição entre esta e a nossa mitologia urbana com sua carga de absurdo e inviabilidade, aqui a temos agora, acrescentando a esse inquieto vocabulário certos acentos do mais refinado dizer pictórico. Pintando a partir de uma emulsão manejada em termos muito pessoais, que lhe assegura uma luz da maior pureza, Ana Vaz, pela intercalação de camadas de emulsão e óleo, chega a uma fatura das mais elaboradas de sua geração, retomando velhas (e atualíssimas) inquietações formais que vão dar em Van Eyck, em Bouts, em Brueghel, o Velho.

Mas requintado que seja o formal dessa pintura, sua captação perfeita do movimento, o irrepetível de certas passagens, a audácia de certas oposições cromáticas, é em outra ordem de inquietações – as que dizem respeito aos conteúdos – que sua qualidade repousará. A artista não é mais hoje a lúdica demolidora de mitos nem a lúcida apontadora de reis nus: é antes alguém que fugindo do trivial da anedota contestadora (aquilo que ela mesma chama de acusação romântica do sistema) compõe seu poema na pauta de uma paisagem psicológica onde está, talvez, a inquietação de antes; num discurso plástico, porém, que somente agora ela atinge.

Aos que buscam na pintura aquela conciliação entre permanência intemporal (pela qualidade) e atualidade (pelo sentido de compromisso), a obra de Ana Vaz oferece, entre esses dois parâmetros, toda uma pluralidade de visões críticas. E é nessa clave polivalente que seu trabalho, antes artefato pictórico bem resolvido, ganha a profundidade de uma complexa escrita a propor-nos decodificações, ou de uma geografia pessoal a sugerir-nos viagens de longo curso a bordo de sua metáfora.

“Tudo em meu trabalho”, diz ela, “parece conduzir ao contraste em seu limite maior: o que não admite uma forma única de leitura”. Mas esta ambigüidade volue não se perde em indecisões ou lacunas; é antes a metáfora central de sua pintura, a mimese através da qual a artista assume a vida enquanto circunstância e a recodifica em termos de proposta poética. Permanece aquele fundamental de seu discurso, a que me referi linhas atrás, ou seja, o homem enquanto animal só, para além de todas as pompas e consolações.

Ontem eram os mitos clássicos revisitados no registro da irreverência e da caricatura; hoje, quando estas se transmudam em angústia, são os espaços urbanos, o lazer, o conforto, a segurança e a assepsia de uma sociedade dita abundante, clichês de uma cultura que se pretende civilização – outros tantos mitos, ou mais exatamente: uma nova apropriação da mesma mitologia, nova no discursivo e no formal. O permanente que existe dialeticamente no transitório dessa fábula é o homem, que nada podendo contra o código do seu enjaulamento e dessa compartimentação, cria para si mesmo a ilusão de um pacto e aí se projeta e se idealiza como realizado. Não foi certamente o amor por um jogo de palavras que a levou a optar por “uma arte, se necessário, cruel porque, sobretudo, humana sem ser humanista”.

Essa metáfora-eixo, fluindo simetricamente à sua realização formal numa linguagem progressivamente mais apurada, guardou toda a anterior capacidade de contundir embora sejam outros o seu som e a sua fúria. A linguagem da artista evoluiu para um nível de codificação que, sem ser precioso, dá-se a poucos, na medida em que exige olhos de iniciado. A semiologia de Ana Vaz clivou-se num retraimento do denotativo para o conotativo, do direto para o mediato, escolhendo um circuito de sinais reduzido, a partir do qual pudesse dar-se ao virtuosismo de articular um vocabulário onde o preciso se fizesse das contingências do exíguo.

Ao privilegiar o cenário sobre os autores, Ana Vaz parece nos dizer que o impessoal de uma cultura massificadora triunfou sobre o seu antigo agente. Os espaços triunfam e se impõem assépticos, convencionais, integrantes de uma semiologia que se faz mitologia. Esse o seu poema da solidão, da incomunicabilidade, da perda. Dito na dicção de uma pessoalidade irrecusável. E dessa pessoalidade, toda ela contraste, uma última questão se coloca: contenderão mecanicamente os conceitos de ambigüidade e precisão? Não necessariamente se falarmos de Ana Vaz: ambígua no sentido de permitir – e até exigir – leituras criativas de sua fábula; precisa na acepção de que essas leituras isoladas, superpostas ou intermediadas, darão, a níveis diferentes, no mesmo universo conceptual. Em outras palavras: a legibilidade alternativa é aqui uma forma de riqueza, nunca de incoerência. A riqueza do seu formal ensejará, aos mais preciosos, aos arraigados semiólogos da pintura-enquanto-pintura, releituras mil. O despojamento do seu discursivo pede, porém, um tratamento crítico mais austero, pois aqui não estamos diante de uma artista de vanguarda – o que, mais que um rótulo é um álibi – mas de uma artista do seu tempo, que nos propõe fazê-lo entender e amar pela única fórmula ainda possível: a redução poética. Aqui operada na pauta do solidário e do encatatório.