Ruy Sampaio
(1977)
A pintura de Ana Vaz é, antes de qualquer outra coisa, uma arte de clima. O grotesco, categoria que ela escolheu para materializar toda a ironia que informa sua visão-de-mundo nessa atual revisão da Mitologia, sempre foi uma armadilha, até mesmo para pintores com longos anos de ofício.
Isto porque o grotesco vive da exatidão: forçando-se a mão, um pouco que seja, ter-se-á a figura ridícula ou, quando pouco, risível, mas o caráter grotesco se terá perdido por excesso.
Se o artista permanecesse aquém da dose exata, ficará quando muito, a sátira descomprometida e inconseqüente, a mera crítica de costumes, ou seja o lugar-comum da desacreditada “arte de mensagem”.
Esses rostos, que se apóiam no background insólito de paisagens regidas por puro arbítrio, evitam, em igual medida, os extremos da caricatura tout-court e da ferocidade panfletária. O material que lhes serve de tema é o absurdo do nosso tempo, tratado, porém, com uma dignidade medida – mas não cautelosa; exata, mas não fria; engenhosa – mas acima de meros artifícios pictóricos.
Ana quer uma revisão dos Mitos. A proposta é fascinante, pois o ideal dos deuses olímpicos não haveria de resistir intacto (senão até bem arranhado) a um mundo poluído, esfomeado, neurótico e mercantilista como o nosso. Essas Dianas e Vênus, esses Apolos e Prometeus enfocados hoje por Ana Vaz não significam apenas a revisão de umas quantas referências culturais que todos nós detemos precisa ou vagamente: significam uma segunda volta do parafuso, ou seja uma subversão diametral da nossa maneira atual de encarar valores. Éramos crianças ou adolescentes quando os nomes e os feitos desses deuses e heróis nos foram contados pela primeira vez; qual de nós hoje tão puro que aceite Leda e o Cisne ou Juno e o Pavão, ou Orestes e Pílades como nas narrativas de então?
Hoje sabemos Hiroshima e My Lay; a contracultura e os paraísos da química; a urgência ecológica e a ameaça nuclear. As minorias eróticas nos dão conta da existência de uma dimensão humana que mesmo os mais abertos de nós ignorávamos; os místicos contemporâneos e a parapsicologia nos sugerem possibilidades que as religiões e as ideologias não souberam ver; o cinema-verdade nos diz quanto nos sonegavam o Homem; a literatura do absurdo demonstra-nos a fragilidade de nossa lógica doutoral. Justamente esse homem contemporâneo, ferido não da Beleza, como queria o poeta, mas da Perplexidade, é o protagonista da fábula de Ana Vaz.
Quando ela põe em cena um grotesco elenco de deuses e heróis que parodiam o que um dia foi sua própria imagem, não é um mero teatro do absurdo o que ela pretende, que se esgote no lúdico ou sirva de pretexto engenhoso para uma pintura bem realizada. O que esta nos propõe é uma reflexão, como ocorre a toda a grande arte.
Por essa temática a artista é bem aparentada, pois suas raízes vêm de Goya, passam por Daumier, chegam ao satanismo de Bearsdley, alcançam Berthe Morisot com suas jeunes filles em fleur, tão pervertidas, e Leonor Fini e suas niñas locas, para, num ramo mais próximo da família, tocarem Rodrigo de Haro, Siron Franco, Guima, João Câmara, Ismael Caldas, toda uma linhagem ilustre de testemunhas implacáveis.
O significante desse trabalho dispensa perfeitamente adendos e floreios; a partir de um significado tão bem proposto, somente poderia ser obra de fôlego, como é. A criatividade do primeiro está à altura da importância do segundo e como se trata de uma artista jovem, é evidente que o futuro – que desde já ela está construindo num trabalho metódico e obstinado – lhe reserva um aperfeiçoamento, nitidamente distinguível já entre a etapa atual e a anterior de seu trabalho.
Sua fábula, apesar de cheia de som e fúria é contada, ao contrário das palavras finais do Rei Assassino, por alguém dotado de ironia e lucidez.