Vistas em Frente e Verso


MARCO POLO
Caderno C
Jornal do Commercio/PE
17 de junho de 1999

 

 

ANA VAZ VIRA A CIDADE PELO AVESSO

 

De volta a mais uma temática urbana, a pintora Ana Vaz inventa uma cidade de pedra e sonho ma mostra Vistas em Frente e Verso, cujo vernissage acontece hoje , às 19 h, na Galeria Futuro 25 [...]. São 26 quadros de diversas dimensões, em óleo sobre tela, nos quais a artista plástica retrata aspectos de Recife e Olinda, em visões panorâmicas e, muitas vezes, aéreas.

Ana Vaz já abordou a urbe em exposições anteriores como Olinda Transfigurada, de 86, ou O Recife é Azul, de 98. A cada série, entretanto, a artista vai acrescentando elementos pictóricos que refletem sua inquietação artística e desenvolvimento técnico. Uma de suas características é o aspecto dual de seus quadros – nos quais convivem áreas em que linhas bem definidas apresentam a visão realista, e zonas difusas onde impera uma percepção mágica ou onírica dos objetos abordados. Esta constante permanece, mas com um novo elemento: a utilização de espátula criando texturas mais gestuais na representação de folhagens.

Outro ponto que chama atenção é a quase abstração para a qual apontam as telas em que são representadas favelas sobe palafitas. São planos que se superpõem, criando um ritmo dinâmico que remete ao abstracionismo geométrico. Assim, ao não representar a cidade como ela é na realidade, mas interferindo com a imaginação, a artista cria uma cidade nova, na qual o seu habitante a reconhece, embora sob um clima de estranheza. O que o leva a rever a cidade sob uma angulação mais poética. É uma forma de fazer o espectador ver a cidade pela frente e pelo verso (este significando ao mesmo tempo a poesia e o “outro lado” ocultos nas coisas).

Mais um dado que aflora na exposição é a presença indireta do ser humano. Embora sejam imagens ausentes de figuras, é possível pressenti-las não só como os artífices daquelas formas, mas também como os habitantes daquelas casas, ruas e prédios. Não é uma cidade deserta e fria. A própria paleta da artista, muito bem organizada, dá um tom cálido aos quadros que remete à afetividade e não ao cerebralismo

O que é um estranho resultado, uma vez que Ana Vaz faz uma arte lenta, estudada, pensada. Como os mineiros que trabalham em silêncio, esta pernambucana vem desenvolvendo sua trajetória sólida, com exposições que se sucedem em intervalos de anos. Não só porque sua pintura é laborada em camadas sobre camadas – daí as transparências e veladuras refinadas -, mas também porque as séries são pensadas para formar um conjunto harmônico onde cada tela complementa a outra.

Segundo a marchande Tereza Dourado, “Ana Vaz mantém o nível de qualidade que caracteriza a Futuro 25”. Com efeito, promovendo apenas três exposições individuais por ano, a Futuro 25 tem parâmetros de excelência muito exigentes. Expor lá é um atestado de boa qualidade.

 


 

Diário de Pernambuco/PE
Caderno Viver
17 de junho de 1999

 

 

SOBREVÔO DE ANA VAZ PELAS VISTAS DO RECIFE
(Excertos)

 

 

 

 

“Pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa”. O trecho do poema Guia Prático da Cidade do Recife, de Carlos Pena Filho, faz parte da abertura do catálogo da exposição Vistas em Frente e Verso, de Ana Vaz. [...]

A artista plástica define-se como uma artista do urbano.[...] Para realizar o trabalho, a artista plástica incorporou técnicas de transparência, fez sobreposições e, no gestual, trouxe a espátula para pintar o verde e valorizar a textura.

 

 


 

JOMARD MUNIZ DE BRITO
Jornal do Commercio/PE
11 de julho de 1999

 

 

 

RECIFE E OLINDA VISTAS EM FRENTE E VERSO
(Excertos)

 

 

... “Olinda não é a única cidade a crescer em círculos concêntricos, como os troncos das árvores que a cada ano aumentam uma circunferência”. Ítalo Calvino). Esse pensamento instantâneo e progressivo em circunvoluções, onde os afetos se superpõem aos conceitos que se espraiam em desejos tão coletivos quanto singulares, essa imagem-tempo dos “círculos concêntricos” relembraria Ortega y Gasset em Calvino e este por cada um de nós. Estudos sobre o amor em razão vital. Toda cidade é presença e rememoração.

Visões em plano de conjunto, quase panorâmicas cinematográficas, através de filtros névoas, brumas e penumbras, suspenses do amanhecer no entardecer, cidades além do tempo e dos relógios, “vistas em frente e verso”, reinterpretações de Ana Vaz por todos os caminhos, Cidades per-durando pela intensidade do olhar em Z, além do marco-zero das escritas e das paisagens. Toda a verticalidade do imaginário religando Recife em Olinda, todos os mares e marés, o velado e a volúpia abraçando-se e talvez apostando no “abismo negro-azul das estrelas”. Igrejas e palafitas, casebres e edifícios vertiginosos, esplendor e miserabilidades.

[...] Por essa abertura em círculos refletindo, que mistérios teria Maria da Paz Ribeiro Dantas para identificar-se e, ao mesmo tempo, relançar-se pelos textos e intervalos, contextos e interstícios, letras e imagens de Joaquim Cardozo? Olinda cidade-surpresa entre os dois e nós, ledores fervorosos de suas miragens?

Eles próprios, da Paz e Cardozo, multiplicando-se por Ana Vaz, pelo Z de todos os Orientes. Cidades-personagens dentro de outras invisíveis e superlativas cidadanias?

[...] O que fez do Joaquim um autor com a mais densa consciência fenomenológica da região e das regionalidades, sem contaminar-se com a onipresença dos regionalismos ultraconservadores? O que faria de Cardozo um precursor múltiplo da “vanguarda popular”, sem os delitos do elitismo e sem os deleites do populismo globalizante? Antes mesmo da convivência em círculos concêntricos com Maria da Paz, o compositor Aristides Guimarães vem incansavelmente retomando todos os seus projetos.

A complexidade da Paz, Cardozo, Guimarães, através das pinturas de Ana Vaz, quando a natureza-Cidade-cidadania vem assumindo a precária, mas perdurante, presença de um Sonho coletivo e singular adiante dos sonolentos das burocracias prepotentes.