A Cor das Águas


 

LYDIA BARROS
Diário de Pernambuco/PE
Caderno Viver
27 de setembro de 1991


ANA VAZ E SEUS ARTISTAS DESCOBREM A COR DAS ÁGUAS
(Excertos)

O resultado de dois meses de trabalho coletivo sob a coordenação da artista plástica Anavaz poderá ser visto, partir do dia 2, no Museu di Estado de Pernambuco. É uma homenagem ao Recife que pretende ser mais do que uma exposição. A Cor das Águas e as Outras Tantas Cores do Recife será uma mostra simultânea da produção individual de Anavaz, com 30 quadros em óleo sobre tela e dos 45 alunos da artista (apresentando 15 painéis de 2.20 x 1.60). Como atividades paralelas serão oferecidas oficinas de pintura, ministradas pela própria artista, nas dependências do Museu, até o dia 15 de outubro – quando também terminam as exposições.

A concepção do projeto foi original. Anavaz trabalhou com o grupo em cima de poemas de escritores pernambucanos, selecionados pelos alunos-artistas. [...] Dessa forma, além do catálogo tradicional, os visitantes da mostra receberão um encarte (tipo jornalzinho), com poesias de Mauro Mota, Jacy Bezerra, Ascenso Ferreira, João Cabral de Melo Neto, Leda Rivas, Carlos Pena Filho, César Leal, Marco Pólo, Renato Carneiro Campos, Paulo Fernando Craveiro e Paulo Gustavo. Os painéis foram pintados a três mãos, com criação e execução do grupo.

[...] Desdobramento da mostra, A Cor das Águas traduz uma visão particular da artista. Mantendo seu estilo figurativo, Anavaz vincula sua produção a reinterpretação do real, retratando e reinventando o urbano. [...] Nas suas telas o rio é um elemento constante. [...] A pintora, que sempre trabalhou com temáticas urbanas em séries, argumenta qe a reflexão de sua pintura atual é a fusão da cidade com suas águas.

A série agora apresentada por Anavaz é a marca de uma trajetória artística e de uma nova leitura do urbano. A homenagem concebida para o Recife é uma viagem aérea, exterior. Contrasta com as duas últimas fases da artista, quando as cidades retratavam um universo mais introspectivo: antes de viajar, em 83, ela produziu Olinda Transfigurada (só exposta em Brasília). Eram os sobrados vistos por dentro, perspectivas de janelas. Já no Rio de Janeiro, em 88, Anavaz insistiu na temática e explorou os ambientes noturnos e fachadas.

[...] Anavaz segue mantendo sua metodologia de trabalho, elegendo um tema e mergulhando na sua essência, apurando a técnica. [...] Apesar da reclamação dos admiradores que gostariam de ver mais trabalhos da artista, nos dois últimos anos, ela compareceu às galerias. Além disso, não abandona o Ateliê do Poço, onde orienta um curso de Formação Artística.

 


 

PAULO CHAVES
Diário de Pernambuco/PE
Outubro de 1991

 

 

ECOS DE UMA BOA EXPOSIÇÃO
(Excertos)

Na mostra de pinturas de Anavaz e de 45 alunos artistas (trabalhos coletivos, cada painel pintado por três deles), [...] o que me surpreendeu ao entrar na sala destinada aos trabalhos coletivos foi o bom nível técnico da maioria deles, a indicar, além de aptidões individuais acentuadas, a boa qualidade do ensino da mestra-pintora.

 

[...] Quanto às pinturas da própria Anavaz, com imagens do Recife (à noite ou à luz do dia) espelhando-se em seus rios, com suas pontes e árvores, apreciei quase tudo, mais especialmente as que insinuam vento e chuva. Essa telas, pelo movimento da composição, transparências e sutilezas cromáticas, deslocamento de formas, dão bem medida do talento e mestria artesanal dessa pintora, que já por duas vezes expôs individualmente na conceituada Galeria Bonino, no Rio, um prêmio a que só uns poucos artistas pernambucanos (de ótimo nível) fizeram jus, como João Câmara, Ismael Caldas, José Barbosa, Macaparana, além do paraibano Miguel dos Santos.

 


 

Jornal do Commercio/PE
Caderno C
2 de outubro de 1991

 

 

UM RECIFE LIMPO (PURO E REAL) NAS CORES DE ANA VAZ
(Excertos)

De duas maneiras Ana Vaz se mostra, a partir desta quarta-feira, 2 de outubro, para o público recifense. Numa como pintora, através de uma individual na Sala Wellington Virgolino, “A Cor das Águas”. Nsa outra, como professora de pintura, na Sala Renato Carneiro Campos, com uma coletiva de quarenta e cinco alunos seus, “e as outras tantas cores do Recife”.

[...] Ana Vaz é uma pessoa que transmite tranqüilidade. Um ritmo lento na forma de ser. Mas sua produção é permanente. Ela começou a fazer individuais a partir dos anos 70. E nos anos 80 fez praticamente uma exposição por ano.

[...] Certamente as pessoas colocam Ana Vaz entre os pintores figurativos do Recife. Mas na realidade4 cada vez mais a artista caminha para um desapego à figura. Pelo menos não no sentido de uma transposição documental. Das séries que já apresentou, apenas na primeira, em 77, “Mito/Lógicas”, Ana utilizava a figura humana como elemento; em todas as outras é claro que Homem está presente mas sempre de uma forma simbólica, ou melhor, sugerida. Nesse sentido, sua pintura me lembra a de Carlos Scliar, gaúcho/mineiro, que também pinta de uma forma que não mostra diretamente o ser humano. Mas sem perder a aura, um clima que fala inclusive de questões da pessoa. Como solidão.

[...] “A Cor das Águas” foi criada a partir de paisagens concretas, reais, do Recife. Como a Ponte Velha, a Casa da Cultura. Em alguns quadros a primeira impressão é até de um naturalismo. Mas pode estar certo de que essa impressão é falsa. A paisagem é levada ao quadro passando por um processo de inteira transfiguração. Nos quadros de Ana a paisagem recifense é limpa; toda a sujeira real ficou abstraída. O ser humano se escondeu. Sem dúvida é um escondido presente. Por um estranho mistério da própria criação artística, temos esse fato.

O temperamento discreto, delicado de Ana Vaz sempre esteve representado em seu trabalho plástico. Uma sua marca é a limpeza, o trabalhar com perfeição as transparências. Em “A Cor das Águas” se tem um toque mais revolto (na verdade apenas menos tranqüilo) pelas folhas, árvores. E de certa maneira existem mais chapados.

[...] “A Cor das Águas... e as outras tantas cores do Recife” representará não só um acontecimento plástico. Quanto aos quadros de Ana, será a reafirmação de um trabalho em seu natural desenvolvimento, onde a qualidade é indiscutível; os painéis dos alunos possuem a marca da aprendizagem. Do bom caminho para o aprendiz. Mas além disso é uma homenagem à cidade. E será certamente uma oportunidade para se verificar que o pessimismo (que o país está vivendo) ainda não tomou conta de todos. Assim Montez Magno parece que tem razão, na sua proposta de colocar a arte como um caminho para a utopia. Se a realidade é negra, criemos uma, bela. Foi o que Ana Vaz fez.

 


 

Diário de Pernambuco/PE
Coluna Cidade
6 de outubro de 1991

 

 

ANA E AS CORES DO RECIFE
(Excertos)

 

Muitos são os poetas que fazem do Recife sua musa inspiradora. E foi através dos poetas que a artista plástica Ana Vaz criou a série de pinturas “A cor das águas e as outras tantas cores do Recife”, em exposição no Museu do Estado até o dia 15 deste mês. “A cor das águas” reúne, com a ajuda de Jaci Bezerra, alguns poemas sobre a cidade trabalhados plasticamente por alunos (ex e atuais) de Ana Vaz.

“Porque o Recife é esse passaporte para a infinitude, pontes perenes contrariando a solidão das ilhas”. Foi esta frase, dita pelo prefeito Gilberto Marques Paulo em entrevista, que inspirou a artista plástica. “Captar essa sensação de infinitude entre os azuis e os ocres refletidos. Essa coisa de cidade espelhada, emergindo das águas e, ao mesmo tempo, forte”, justifica. [...]