Entrevistas


JOSÉ MÁRIO RODRIGUES
Jornal do Commercio/PE
Coluna Arte Sempre
26 de setembro de 1976

 

 

 

José Mário: O que teria levado você a se expressar através da pintura?

Ana Vaz: Venho de um gosto pela forma desde a infância. Sempre gostei de desenhar. Lembro um concurso de pinturas que ganhei quando criança promovido pela Delta Larousse. Junto à medalha, a alegria enorme da vaidade crescida; o orgulho infantil pelo dourado enfeitando o bolso da blusa branca. Depois, a gente esquece de conhecer o que quer. Hoje, um curso de direito acabado, mas praticamente impraticável. Foi de 72 para cá que me redescobri no que não me sabia. O desenho cresceu. Primeiro, o desenho a nanquim, de caráter surrealista, místico; de julho de 75 para cá, a reformulação presente na necessidade da cor.

JM: O que é pintura hoje para você?

AV: É necessário tempo para a reflexão e o amadurecimento nas escolhas. É preciso observar e captar as sensações e os fatos exteriores, pois uma obra de arte não se justifica por si mesma.Não vale o puro impacto visual de gosto meramente decorativista, não vale o desbafo de simples pressões interiores e subjetivas. Claro que tudo isto se faz intrinsecamente presente, mas devendo estar necessariamente aliado a uma digestão de caráter crítico indispensável. Há a necessidade de uma visão mais ampla que parte de um questionamento aberto e lúcido sobre o momento que estamos vivendo.

JM: E o momento que estamos vivendo?

AV: Estou com Brecht quando ele afirma que o trabalho dos criadores não é mais que um trabalho de fornecedores e assiste-se ao nascimento de uma noção de valor cujo fundamento é a capacidade de exploração comercial. Na verdade, é crescente o distanciamento entre a verdadeira obra de arte e a engrenagem à qual ela teria necessariamente de se adaptar para sobreviver. Os Museus, como Templos Sagrados, guardam silenciosos e reverentes, os seus acervos, enquanto se debatem entre normas e padrões de atuação já superados.

JM: E que implicações tal fato vem a acarretar?

AV: Aqui, para a gente nova que somos, o apoio praticamente inexiste. A criação é só e marginalizada.Os recursos são poucos e pobres. As poucas Galerias acreditadas preferem trabalhar com artistas conhecidos, quase sempre de outros estados ou regiões. Mas, afinal, ligadas a um sistema de veiculação do trabalho artístico como meio de obtenção de lucros, não lhes caberia o papel d benfeitores; lhes seria estranho um caráter paternalista que não queremos. Caberia, penso, aos órgãos governamentais atentarem para a necessidade de fazer crescer o movimento artístico e literário da região.

JM: A crítica hoje, como você a vê?

AV: É sempre uma situação crítica falar sobre a crítica especializada. Sem dúvida alguma, seu papel deveria ser da maior importância no que se refere à informação e difusão do trabalho artístico, da atividade criadora em si. Hoje, há gente boa, mostrando o que é bom, o que realmente tem valor, há gente superada, fazendo uso dos chavões habituais. De uma forma ou de outra, a crítica, da forma que é feita hoje em dia, é sempre parcial e se dirige mais ao público consumidor que a nós – os consumidos.

JM: E sua opinião crítica sobre seu trabalho?

AV: Sabe-se que a burguesia necessita de uma cobertura ideológica que lhe justifique e explique a sua atuação no sistema social. É sobre esta pseudo-ideologia que indago. Nela se funda a minha criação. Não se pode falar sobre o que não se sabe. Nasci, cresci e convivo com os grandes e pequenos burgueses que somos todos nós. É através de um realismo crítico, vinculado a uma forma de caráter expressionista, que tento me expressar.

JM: Sua individual de 1º de outubro no MAC mostraria, assim, a forma ideal encontrada?

AV: Não claro que não. Admitir tal fato seria admitir um pretenciosismo inaceitável quando se trata de realizar um trabalho que, por ser criativo, tem que ser dinâmico. Atingir a forma e a técnica perfeitas implicaria, naturalmente, em estagnação. É preciso ter os olhos abertos. A arte busca sempre atender à dinâmica do fato de estarmos vivos. O caminho é longo e estamos sempre ainda no início da descoberta.

 



ALBERTO CUNHA MELO
Jornal do Commercio
Coluna Commercio Cultural
7 de abril de 1985

 

 

 

Alberto Cunha Melo: Qual o significado da arte para você?

Ana Vaz: Tá aí uma pergunta difícil de ser respondida. Quase como se me fosse perguntado qual a significação de respirar, comer, amar. E por aí eu acho que cheguei a uma resposta no sentido do vital. O principal, quero dizer, a síntese talvez do significado da arte esteja no fato de ser ela vital (logo imprescindível). Desde a utilização da urina como diluente pré-histórico aos atuais processos de criação computadorizados, a arte é. Logo, está. Algumas vezes “aparentemente” deslocada, ela cumpre sua função: a de se permitir não ter funções específicas. Ou ter função polivalente, complexa: apresentar, mas também re(a)presentar; codificar, mas também decodificar; interpretar o visível e ao mesmo tempo revelá-lo.

 

AC: Como você enquadra seus trabalho dentro das propostas contemporâneas?

AV: Como trabalho e também como proposta, contemporânea que sou.

 

AC: Sua experiência européia teve alguma influência sobre sua maneira de fazer e pensar arte?

AV: Sim, claro. Como toda experiência, aliás. Viver a Europa foi viver um certo tipo de contraste e um certo tipo de similitude. Se contraste do ponto de vista das culturas, similitude, entretanto, do ponto de vista da nossa eterna condição humana.

Se eu quisesse falar de como tal coisa se processou, creio que precisaria falar muito detidamente sobre minha vida. Porque os seis anos de permanência no exterior não constituem um hiato ou um fato isolado dos demais. Se eles significaram a aquisição de novos pontos de referência, foram também a possibilidade de repensar e até ratificar algumas questões anteriores. De um ponto de vista mais objetivo creio que a França me foi muito importante no sentido do “fazer pintura”. Havia, até então, um desejo muito grande de expressão, mas um quase total desconhecimento das técnicas e dos procedimentos existentes. É bem verdade que não se trata de uma condição sine qua non em se tratando de pintura. Se assim o fosse, onde poderíamos situar as pinturas naifs ou as primitivas? Acho que tudo isso vai muito na direção da necessidade de cada um. A verdade é que o acesso a museus, a exposições contemporâneas e a uma ampla bibliografia sobre o assunto me deu a oportunidade de um longo aprendizado. E compreendendo a técnica não como um receituário a ser seguido, mas como uma série de referências fundamentais para quem quer aprofundar – mergulhar realmente – na busca de sua própria linguagem, eu acho que essa aprendizagem me foi muito importante. Porque eu sempre tive um certo receio daquela história de queimar etapas. E nunca desejei fazer pintura de “uma determinada forma”, por não saber fazê-la diferentemente. Daria uma sensação danada de falta de opções. Até a cópia de si mesmo é exaustiva, desgasta. E os caminhos – todos os possíveis – precisam estar abertos. Porque qualquer inovação ou qualquer ruptura, quando ela é necessária, só pode se processar como uma resultante do conhecimento.

 

AC: O problema do material importado e seu preço, como você o vê?

AV: Eu acho que esse problema dá origem a uma discussão já um tanto e quanto superada. É bem verdade que, de volta ao Brasil, trouxe comigo um bom estoque de tintas, diluentes, pincéis e telas francesas. Mas foi exatamente aqui que me dei conta do quanto isso era desnecessário. Existem atualmente no mercado nacional tintas de boa qualidade e das quais eu venho me servindo com freqüência. E bons pincéis também. Um excesso de requinte nos materiais utilizados pode por vezes vir camuflar uma certa falta de talento de quem os manuseia. E aqui a gente entra de novo na resposta à questão anterior, sobre o conhecimento. Você sabe: o trabalho de pintura é, de certa forma, um trabalho de alquimia. Ali a gente também transforma. Um tecido tão conhecido e tão nosso como o algodão pode ser um bom suporte para a fabricação de telas. Um ovo é a base da têmpera comumente utilizada. E eu acho muito gostoso adentrar nesse processo de transformação das matérias. Daí porque no atelier, no curso que venho dando há algum tempo, é o próprio grupo que prepara o seu material de trabalho, aí compreendidos desde a escolha e a preparação de um suporte até o verniz final a ser estendido na tela.

 

AC: Qual a sua visão sobre a arte brasileira atual?

AV: Para ser franca, eu não me sinto atualmente em condições de me estender sobre o assunto. Há apenas dois anos estou de volta ao Brasil e nesses poucos dois anos, por questões conjunturais, não pude acompanhar as grandes manifestações artísticas que acontecem no país, tais como o Salão Nacional do Rio ou a Bienal de São Paulo. Creio que necessito ainda de mais tempo para ter uma visão mais precisa do que é que anda acontecendo apesar da impressão de que pouca ou muito pouca coisa aconteceu ou mudou. Quero fazer fé neste momento brasileiro. E torço para que ele possa significar para nós, artistas, o início de um período de mais liberdade e de renovação.

 



PAULO CHAVES
Diário de Pernambuco/PE
Coluna Artes e Artistas
4 de agosto de 1991

 

 

 

Paulo Chaves: Na qualidade de artista e mestre, como você concilia p trabalho de criação e o de ensino?

Ana Vaz: Não vejo dicotomia entre uma atividade e outra. Enquanto pintora, transito em meu universo de referências pessoais. Enquanto professora, há uma auto-exigência de transcender justamente esse limite da pessoalidade. Por outro lado, ensinar a um aluno um “modo” de pintar é criar um discípulo. E esta me parece uma postura estética ultrapassada que faz lembrar os ateliês renascentistas. A procura de um estilo e linguagem próprios me parece fundamental.

 

PC: O mercado exige sempre do artista uma certa imutabilidade em termos de estilo. Veja o caso de Gil Vicente que muitos dizem estar “perdido” justamente por seu ecletismo de linguagem e estilo. Como você encara esta questão?

AV: O conceito de estilo que vigora aqui é o da repetição e auto-repetição contínuas. Fundamental é pintar não importa o quê, não importa como. É que o quadro seja marcado pela pessoalidade do artista. Isso exige, inclusive, outro tipo de leitura crítica, mais ligada à pintura em si, menos cristalizada por chavões convencionais de conteúdo lógico. A cada um de nós corresponde uma linguagem visual específica. A isto eu chamo expressão. É a isto que eu chamo estilo.

 

PC: Pernambuco se arvora em núcleo de resistência a conceitos estéticos predominantes no sul do País, sobretudo no que se refere ao tipo de trabalho favorecido em determinadas revistas especializadas e em promoções tipo Bienal de São Paulo. Sua opinião por favor.

AV: Existe aqui uma tendência muito forte à negação do que vem sendo produzido lá fora, principalmente no sul do País. De qualquer modo, há dificuldades de mercado. Mas não acho que a resposta possa vir através da idéia de “arte de resistência”. Para ser franca, a idéia não me agrada. Se necessitamos criar algum tipo de resistência é porque já estamos, a priori, fragilizados. E uma produção artística como a nossa não me parece débil. Muito pelo contrário. É sinal de vigor se permitir estar receptivo. É por aí que as coisas são absorvidas e filtradas. Ruminadas e cuspidas. O assunto exigiria, no entanto, uma reflexão mais longa sobre a questão da identidade.

PC: Como você vê a proliferação de espaços alternativos aqui em Pernambuco?

AV: A questão dos espaços disponíveis é realmente problemática. Temos poucas galerias trabalhando com real profissionalismo. Em São Paulo e no Rio, por exemplo, os espaços são mais divididos: há galerias de arte abstrata, galerias de arte primitiva, galerias de vanguarda e por aí vai. Algumas trabalham com artistas novos, outras com veteranos, de valor reconhecido. Aqui tudo é muito precário, misturado. A questão do “valor de mercado”, dos preços em si é algo extremamente caótico. Acho que isso dificulta as coisas para todo mundo, principalmente para o público. Público que só de uns anos para cá começou a amadurecer e se tornar mais exigente. Quanto aos alternativos, se o objetivo do artista é apresentar seu trabalho a um público maior, mais eclético, eles não só são válidos, como necessários. Isso sem falar no papel fundamental dos museus e instituições no sentido de formação e consolidação de um currículo pessoal.