O Mitologico


PAULO AZEVEDO CHAVES
Diário de Pernambuco/PE
Coluna Poliedro
1º de maio de 1977

 

 

DOIS JOVENS PERNAMBUCANOS NO RIO
(Excertos)

 

 

[...] Sérgio Lemos e Ana Vaz (esta com sua exposição encerrada no dia 28 de abril, enquanto a de Sérgio estará aberta até o dia 3 do corrente) vieram ao Rio mostrar aos cariocas o resultado de suas pesquisas no campo da pintura. Ambos são jovens – Sérgio, segundo me informaram na Galeria Signo, tem cerca de 22 anos, enquanto Ana Vaz está com 25. Ambos também sofrem a influência (salutar) da pintura de João Câmara. Influência é um dado positivo em qualquer campo da criação artística. Há, por exemplo, nítida influência wagneriana na música de Mahler e Bruckner, sem que isso diminua em nada o valor desses dois grandes compositores, que nos legaram, aliás, uma obra extremamente rica e pessoal. Já no campo da pintura, em alguns casos é difícil distinguir um quadro de Braque (período 1911-13) de um de Picasso, talvez porque ambos trabalhassem juntos naquela época em que o cubismo nascia e se desenvolvia na França.

[...] Confesso que fiquei mais impressionado com o domínio técnico de Sérgio Lemos do que com as pinturas da série o Mito-Lógico, de Ana Vaz. Mas há uma força expressiva, uma qualidade de emoção e intelectualidade na obra desta última que prenunciam uma artista em plena ascensão.

[...] De qualquer modo, o que mais me impressionou em minhas rápidas visitas à Galeria da Aliança Francesa de Ipanema (exposição de Ana Vaz) e à Signo Galeria de Arte (exposição de Sérgio Lemos), também em Ipanema, foi a força expressiva e complexidade emocional da pintura de AnaVaz, infelizmente em descompasso, a meu ver, com seu domínio técnico, ainda não plenamente amadurecido – e, no caso de Sérgio Lemos, com o apuro técnico de sua pintura para o qual o curso de pintura de três anos na Escola de Artes da Universidade Federal de Pernambuco (1966-69) terá, com certeza, parcialmente contribuído.

 



MAURÍCIO MOTTA

Diário de Pernambuco/PE
24 de maio de 1977


ANJOS E DEMÔNIOS

 

Descobrir é a motivação constante na pintura de Ana Vaz. São os olhos que rasgam e percorrem o tempo, trazendo o instante quase brusco e real do impacto. São estes mesmo olhos que fitam o âmago de cada um, salientando, com força mágica, dissabores, coragem e medo.

Suas figuras amaras projetam-se além do presente para o futuro de reflexos e reflexões, numa batalha sem vendidos e perdedores, onde a natureza julga todas as indagações. Os trabalhos de Ana Vaz oprimem como oprime o mundo, todavia sem efemeridades, e sim conquistas. Conquistas essas em que se não possessas, não são ternas, mas ferem e cantam dentro desse espaço definitivo de vida.

Anjos e demônios criados e traçados juntos sem convencionalismo e preocupações estéticas, mas habitando fora os seus quadros, nossas casas internas, subjugando todos os dias, e em todos, o excêntrico de sua paisagem ativa e esmiuçadora. Sua pintura existe sem passividade como não é pacífica na sua incessante busca de focalizar o grotesco e trasmiti-lo em mensagens de códigos que, se decifradas, surgem como encanto de inesperado sufoco.

É esse mesmo grotesco que, através de suas formas circunspectas, acorda do sono, pesadelos e sonhos, impondo ritmos agressivos e amenos, dosados a fim de perseguir o destino certo, o rumo conhecido, o caminho andado.

É como se Ana Vaz, na sua pintura, abrisse as cortinas para um espetáculo, e, em apenas um ato somente, seus quinze personagens dramatizassem um universo estranho à primeira vista, vestindo-se de cores, ameaças e sustos, sem passado e presente, apenas desenvolvendo duas habilidades significativamente violentas e surpreendentemente necessárias. Um longo e derradeiro ato onde mal e bem desconhecem seus próprios limites, seus próprios espaços, e penetram mútuos e soberbos, humildes e repressivos, na realidade do mundo que lhes pertence.

 



JACI BEZERRA
Jornal do Commercio/PE
22 de maio de 1977

 

A CONSTRUÇÃO DA ALEGORIA

 

Há o milagre da mão que se move, no início, para construir, nos nossos olhos aprisionados, a nossa angústia e a nossa amordaçada realidade. A mão, transparente de luz, com os tendões dos dedos frágeis e delicados, não ilumina o riso, nem desata os luminosos cadarços da alegria. No universo que a mão constrói, com paciência e precisão, transita uma amargura cáustica e um cáustico desespero. Há quem prefira, contemplando a luz que se move nas sombras, afundar os olhos na suavidade das asas dos pássaros. Se não na veludosa perfeição de flores imaginárias. Para se justificar a fuga ou a vocação para a suavidade, os dedos podem apontar para os olhos horrorizados e franzidos diante do mundo que a mão revela: belo e preciso, nas suas formas, mas carregado de intenções e amargos significados.

A mão, tonta de luz, escorrega com lenta sabedoria no espaço aberto à sua frente. E captura, apenas o que os olhos vêm e entendem: um gesto de angústia ou desespero. Sobretudo os olhos irônicos e perversos, destituídos de solidariedade, dos seres e das sombras que não enxergamos e no entanto nos sufocam e nos ameaçam. É possível que não seja exatamente esse o objetivo da mão ao dar forma e cor ao universo que a circunda. Os olhos, então, poderiam estar errados. Mas os olhos sabem que a mão, desenrolando o novelo das sombras, abre portas e janelas diversas para a sua contemplação: As figuras que a mão arquiteta podem ser iguais para as nossas retinas fatigadas, porém muitas e diversas na sua realidade.

A mão certamente, mergulhada no mundo, procura a cada instante alcançar o exato resplendor da luz e o contorno macio das sombras. E o que revela, nessa procura, a cada gesto e a cada momento, é a realidade circundante; não como essa realidade se apresenta, mas como é interiormente prisioneira e enclausurada. Talvez aquilo que os olhos escondem atrás das portas da reflexão, extrema e imensamente envergonhados. Podem os olhos, diante da realidade que a mão apresenta, cerrar os cílios, alheios à incandescente realidade que a mão criou, mas ficarão, ainda assim, por um longo tempo resplendendo no silêncio , encedeando as sombras e os seus arredores.

Poucos e raros, porém, serão os olhos capazes de se recusarem a esfolhar a alegoria que a mão compôs. Talvez a boca de alguns não ouse interpretar, nessa época de criaturas mudas, as imagens que a mão oferece aos nossos olhos. Muitos, porém, a maioria, as contemplarão e se sentirão tocados. Guardarão nos olhos as formas e as cores que a mão revelou. A sombra e a luz. E se sentirão, certamente, emocionados e gratificados.

 



PAULO HENRIQUE MARTINS
Diário de Pernambuco/PE
07 de agosto de 1977

 

A FORMA E O CONTEÚDO NA PINTURA DE ANAVAZ

 

É comum em qualquer discussão sobre arte, principalmente quando se trata das Artes Plásticas, afloram-se eternas polêmicas sobre os papéis desempenhados pelo “conteúdo” e pela “forma” na criação artística.

Não se pode negar em tudo isso, a importância da história em influenciar e definir tendências para um ou para a outra, tendências essas que em última análise atingem até a própria originalidade da obre de arte criada.

São conceitos que interagem obrigatoriamente, o segundo exprimindo o primeiro, a forma objetivando o sentido e o intuído.

Entretanto, não cabem aqui divagações de ordem filosófica sobre o assunto, que nunca terminariam, mas a constatação de certos caminhos que têm sido percorridos, ultimamente pelas artes plásticas em Pernambuco e no Brasil, marcadamente estimuladas por “marchands” e “galerias” no sentido de prestar outra roupagem a velha “arte do cavalete”, transformando-a numa “arte simplesmente decorativa”.

É aqui que eu paro para refletir e lembrar o trabalho de Ana Vaz, cujos anos de pintura a óleo, incorporam tal vigor e personalidade pouco encontrados em gente que pinta há anos.

Da exposição de outubro do ano passado no Museu de Arte Contemporânea, em Olinda, à exposição que foi inaugurada no dia 3 de junho no Museu do Estado de Pernambuco, percebemos um crescente amadurecimento no domínio do pincel, que revela, através deste curto espaço de tempo, a presença de mãos firmes e de uma orientação definida.

Não é por outro motivo que o bom crítico de arte Ruy Sampaio, pernambucano de origem e radicado no Rio de Janeiro, definiu a pintura de Ana Vaz como sendo, “antes de qualquer coisa, uma arte de clima”.

Seu atual trabalho a ser exposto sobre os mitos é uma confirmação da seriedade de sua criação. Do fascínio de Vênus, ao delírio de Morfeu e deboche de Baco, vivenciamos deslumbrados tudo aquilo que a artista procurou expressar. Percebemos sua preocupação de que o pincel trace com a maior fidelidade o realmente sentido. É isso que chamo de “arte do despojamento” em que o desprezo pelo simplesmente decorativo mas bem aceito comercialmente no mercado de arte, se consubstancia com imensa força na expressão contida e demoníaca de Júpiter. E o que caracteriza realmente o verdadeiro valor de uma obra de arte, e que nela encontramos com clareza, é o fato de, engajando-se a uma determinada realidade histórico-social, extrapolar os limites do puramente temporal, assumindo um caráter de permanência e duração.

O artista que não consegue se desprender das forças que valorizam simplesmente agradável, está fadado a realizar uma obra pobre e efêmera, cujas lembranças as poeiras do tempo se encarregarão de encobrir.

Ana Vaz faz parte de um pequeno grupo de resistência, que procura fugir dos contínuos chamamentos materialistas de nossa época. Nela, a forma realmente expressa o sentido. Esse é o único caminho pelo qual a criação é autêntica em todo o seu processo em que forma e conteúdo interagem universalmente.

Ana Vaz como ela bem o diz esquece hoje “os padrões da representação estética mais convencional” e complementa “a procura da forma foi uma constante na busca dos contornos mais autênticos e da expressão mais viva de cada traço da personalidade”.

Sempre partindo de uma atitude de consciência, a artista realiza, acima de tudo, uma arte de desafio perante o convencionalmente desnecessário, o cômodo e repetitivo.