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PIETRO MARIA BARDI
Setembro de 1985
No Museu de Arte de São Paulo passaram, desde sua inauguração em 1947, até hoje, algumas centenas de artistas de todas as tendências, pois nossa tarefa é a de informar mais do que julgar, deixando ao público seus pareceres, às vezes ao nosso ver certos, outras até negativos. Mas esta é a conseqüência do expor, quem depois vai decidir sobre os méritos será a história.
Lembro esta atividade das exposições, numa certa época considerada até imprópria para um museu, para justificar o caso da pintora Ana Vaz, a qual tendo apresentado uma individual no MASP em 1983, expõe agora no Recife, na Galeria Officina.
É com prazer que a apresentamos pela personalidade da artista e para justificar mais uma vez que as exposições do MASP se distinguem e quem as realiza lembra-se de nós.
A mostra de Ana Vaz foi bem aceita por parte dos visitantes do MASP, notando-se interesse pelas representações da jovem, por seu surrealismo castigado oferecendo contacto com figurações de curiosa invenção.
Agora, pelo que vejo no álbum que Ana nos faz conhecer, a autora está se dedicando mais à paisagem que cria com o mesmo espírito das figurações.
O MASP recomenda esta nova manifestação de Ana Vaz em sua cidade.
ORISMAR RODRIGUES
Diário de Pernambuco/PE
Caderno Viver
22 de outubro de 1985
ANA VAZ EXPÕE NO RECIFE O SEU MUNDO TROPICAL
(Excertos)
De repente explode aos nossos olhos o colorido forte do verão brasileiro. Pinceladas de verde numa vegetação tropical conhecida, ou uma paisagem imaginária que também nos leva a um mundo de fantasias.
A pintura paisagística de Ana Vaz obriga-nos a uma viagem transcendental. Quente de cor e de divagações etéreas. A impressão é de que tanto a paisagem que seus pincéis trouxeram do quintal de sua casa de Olinda, como aquelas que sua sensibilidade artística criaram nas telas deixam de ser exclusividade sua para também nos pertencer.
Pois, em cada tela, o sonho chega quase a se tornar magia. Tal é a força de tranqüilidade que as paisagens de Ana Vaz conseguem transmitir. Quer seja nos tufos de folhagens, que parecem uma composição única com o jorrar de cachoeiras, que naquelas rochosas, que a artista tão bem sabe cortar com uma nova paisagem, onde uma vegetação brotou livremente.
Essa nova temática da artista persegue o mesmo objetivo dantes: vida. Se anteriormente ela pintou o homem associado às coisas que ele desfruta no seu dia-a-dia, documentando o social, nas paisagens, ela igualmente capta a vida. Só que desta vez sonhada. Buscada muitas vezes no fantástico mundo daqueles que ainda têm o direito de poder sonhar. Direito este que lhe pertence.
MARCELO PEREIRA
Jornal do Commercio/PE
Caderno C
31 de outubro de 1985
ANA VAZ: PAISAGENS DE UM TEMPO IMAGINÁRIO
(Excertos)
[...] Se antes o homem era o seu referencial primeiro – retratado por AnaVaz como um ser envolvido nas suas circunstâncias, em seu anonimato de transeunte mergulhado no cotidiano urbano – esta primazia foi cedida para o tema das paisagens, tão comum a todas as épocas, mas valorizado e renovado pela incursão intimista que a artista transpôs com sensibilidade nas 30 telas sobre eucatex que compõem a exposição.
Mas as paisagens de Ana Vaz não buscam o registro fotográfico, documental. Não são crônicas naturalistas.
Elas buscam uma certa absolutização “zen”, intemporal. É ela mesma quem diz que “numa época em que a figuração explora e disseca o humano, e as paisagens, quando aqui pintadas assumem quase sempre uma dimensão naturalista, a idéia me soou como uma espécie de desafio. Em não pintar o que vejo, mas no fazer da paisagem o signo de uma outra coisa”.
Assim, as suas paisagens parecem ser fragmentos, cortes no tempo e no espaço combinado no jogo ágil de transparências. São paisagens aparentemente silenciosas, acrescenta Ana Vaz. Isso significa dizer que elas não são ruidosas. Não são paisagens cenas, mas paisagens emoções.
Ana Vaz acredita ter alcançado um caminho inverso, o homem fora ou para além de suas referências culturais. “Alguma coisa de intemporal, que se sonha absoluto, como absoluto é o sonho no instante em que é vivido”, diz com sensibilidade de quem procura buscar um contato maior com coisas espirituais.
São paisagens, imaginárias ou não, que trazem em si uma característica comum: a não vinculação com o real imediato. Ou seja: não são paisagens de um lugar preciso, que possa ser identificado. Acrescenta Ana Vaz que “se algumas vezes foi no fundo do quintal de me atelier em Olinda que o quadro se esboçou, essas vegetações se transmudaram no trabalho do pincel. Transformaram-se e outras paisagens – interiores”.
Há, contudo, quem possa interpretar que esta exposição onde os tons verdes e azuis predominam, reflita o sinal dos tempos, como assinala Bernardo Dimenstein, para quem “os artistas de certa maneira profetizam a extinção de toda a natureza”. Ana vai mas além, transmutando a natureza para um tempo indefinido. Um tempo sem tempo, só paisagem.
PAULO AZEVEDO CHAVES
Coluna Poliedro
Diário de Pernambuco/PE
01 de novembro de 1985
PAISAGENS DE ANA VAZ
(Excertos)
[...] A figura humana sempre presente nas criações de Ana Vaz, foi agora eliminada das mesmas, nesta exposição na Officina, inaugurada ontem, em favor da representação paisagística. Diferentemente da maioria dos pintores locais, que representam a paisagem numa linha naturalista ou pelo menos mantendo uma certa fidelidade ao modelo, a partir de uma pintura de observação, em atelier de campo, Ana Vaz faz o que ela mesma chama de “paisagens-emoções”. São paisagens, imaginárias ou não, às vezes inteiramente elaboradas em seu atelier, noutras esboçadas no jardim de sua casa olindense, mas posteriormente arquitetadas com acréscimo de elementos da imaginação.
As composições de Ana Vaz são frequentemente divididas em segmentos geométricos, formados por linhas finas, que interrompem ou dão continuidade à linearidade da paisagem. Às vezes, tais segmentos têm veladuras muito leves, como se fossem formados por lentes de vidro fosco, embora em muitos quadros eles sirvam apenas para enquadrar ou interromper a paisagem ou mesmo criar um fragmento de paisagem autônoma em relação à principal. Trata-se de uma pintura muito pessoal em sua linguagem lírica, emotiva, plena de mestria artesanal em sua fatura. [...]