Noturnos


 

JOÃO ALBERTO
Diário de Pernambuco/PE
17 de julho de 1988

 

ANA VAZ

Ana Vaz é uma pintora, cujo trabalho eu gosto muito. Inclusive, já fiz uma entrevista com ela, para capa deste caderno, antes dela ir para o Rio de Janeiro, onde fixou residência. Ainda este mês, ela estará chegando ao Recife, para preparar o catálogo de sua próxima exposição, que vai ocorrer, em setembro próximo, na Galeria Bonino, o Rio, numa mostra simultânea com a Galeria Traço, em São Paulo. A apresentação do catálogo-convite dessa sua expô será assinado pelo crítico de arte Jacob Klintowitz.

 



WALMIR AYALA
Jornal do Commercio/RJ
Setembro de 1988

(Excertos)

 

 

A Galeria Bonino inaugura no próximo dia 20 uma exposição de pintura de Anavaz. Os Noturnos de Anavaz, enquadrados pela geometria altamente simbólica da janela, brotam incendiados e reveladores. Varados de uma luz purificadora, os espaços se intimizam, e as formas despidas de imediatismo integram uma zona de equilíbrio, onde o mistério e a ameaça se misturam. [...].

 



 

GEORGES RACZ
Setembro de 1988

 

PINTURA NOTURNA DE ANAVAZ
(Excertos)

 

Noturnos é o título das duas exposições de pintura de Anavaz, uma aberta na Bonino, até 8 de outubro, e a outra a ser inaugurada, na Traço Galeria de Arte, em São Paulo, de 29 de setembro até 28 de outubro.

[...] Sobre a sua pintura noturna, luzes e sombras, contrastes e nuanças, diz o psicanalista O’Dwyer de Macedo, atualmente radicado em Paris: “Existe sempre um pensamento embutido no espaço, mistério cujos filamentos a penumbra desenha... E o convívio prolongado com a zona de penumbra, que cada um tem dentro de si, é uma salutar cura de abstinência da metáfora, abstinência que forja em nós a coragem necessária para acolher o único milagre que legitimamente podemos exigir da vida: o da clara violência do encontro com a diferença radical do outro”.

 



O Globo/RJ
19 de setembro de 1988

 

OS NOTURNOS DE ANAVAZ NA BONINO
(Excertos)

A partir de amanhã e até o dia 08, a tradicional Galeria Bonino (Rua Barata Ribeiro, 578) estará apresentando a exposição individual da artista plástica Ana Vaz, intitulada “Noturnos”. Pintora figurativa do urbano, a artista procura transmitir através de sua obra tudo o que caracteriza o homem e o espaço contemporâneo, além das relações entre eles [...].

 



Revista Visão
Coluna Tempo Livre
Setembro de 1988

 

DESTAQUES

 

O roteiro de exposições em São Paulo e Rio tem alguns apelos irresistíveis, em museus, galerias ou espaços sociais. Mas uma artista se destaca: Ana Vaz, cujas obras podem ser vistas por paulistas (na Traço Galeria de Arte) e por cariocas (na Galeria Bonino), na mesma semana. São trabalhos em óleo sobre tela.

 

 



PAULO CHAVES
Artes e Artistas
Diário de Pernambuco/PE
04 de maio de 1989

 

ANA VAZ: MOSTRA NO RECIFE
(Excertos)

[....] A convite da artista, visito a Panorâmica das Artes Plásticas de Pernambuco, em 1986, na Galeria Metropolitana Aloísio Magalhães. A linha expressionista dos anos 70 tinha sido substituída por óleos em que Ana Vaz registrava os movimentos de pessoas no metrô de Paris e, às vezes, as próprias instalações deste como assunto autônomo dos trabalhos. Havia um severo questionamento da vida nesses labirintos do subsolo parisiense a frieza e pressa das pessoas postas em paralelo com detalhes de plataformas, portas, escadas – as engrenagens de um cenário do qual se ausentava qualquer emoção verdadeiramente humana e que, ao contrário, submetia os que por ele transitavam à robotização dos sentimentos, dos movimentos. Três anos depois da visita à Metropolitana, é essa a “impressão” que ficou dos quadros pálidos, de poucos contrastes, ali expostos.

Depois disso, Ana Vaz coordenou ótimos cursos de pintura em seu atelier da rua do Amparo, onde também pintava quadros com temas diversos, inclusive feiras de rua, e que refletiam seu reencontro e seu encantamento novo com as cores e as coisas dos trópicos. Pinta também paisagens, embora seu encantamento maior concentre-se na figura humana, nos questionamentos de sua índole e de sua essência. Ou no seu habitat, em cenários que falam de sua presença, como é o caso dos trabalhos que expôs em individual na Galeria Bonino, no Rio, no ano passado. Interiores que fulguram misteriosos, através de persianas ou janelas entreabertas, induzindo-nos a refletir sobre as pessoas que neles habitam, no que fazem, em como seriam suas vidas.

O mistério que está por trás das janelas pintadas de Ana Vaz fizeram-me pensar nesses versos que falam de uma rota desconhecida, no poema Imprevisão, de Marilda Vasconcelos de Oliveira:

Os botões de sol nascente
Animam as paredes da sala.
Passeio sob o desconhecido de mais um dia.

Só que nas telas o fulgor, a luz, vêm de dentro para fora, saem de casas ou apartamentos silenciosos ao encontro da claridade ou escuridão em que transitamos nós, os espectadores de suas imagens, questionadores do que está por trás delas, do seu significado mais profundo. Ou como escreve Jacob Klintowitz, no texto do catálogo da Bonino apresentando Noturnos: “Há uma só janela que esperamos ver aberta e todos, os que estão do lado de cá, aguardam este acontecimento”.

[...] São essas pinturas noturnas, reflexivas, intimistas de Ana Vaz, com suas fulgurações misteriosas de amarelo e laranja, numa arquitetura de um geometrismo sensível, de transparências e vibrações cromáticas, que poderão ser vistas a partir do próximo dia 11, na Belo Belo Edições e Arte, sob a direção da poeta Maria de Lourdes Hortas. Aquele aprazível espaço para livros e autores, para artes e artistas no ecológico bairro de Casa Forte.

 



LÊDA RIVAS
Diário de Pernambuco
Caderno Viver
10 de maio de 1989

 

ANAVAZ E SEUS NOTURNOS: DE COMO A ARTE, PELAS JANELAS, PENETRA NA SOLIDÃO DO HOMEM
(Excertos)

O que escondem as janelas envidraçadas da grande cidade? Que se passa por entre as frestas metálicas dos arranha-céus? Qual o mistério da vida para além da transparência das cortinas?

Entre a inquietação e a perplexidade – emoções que invariavelmente acalentam a alma do artista – Anavaz foi buscar respostas a estas perguntas num mergulho profundo em torno de si mesma. Dele emergiu mais lúcida e madura, o riso complacente a cicatrizes expostas, para nos brindar com uma nova mostra de seus trabalhos que o Recife vai ver a partir de amanhã. São, ao todo, 18 telas a óleo, enfocando um tema bem familiar à pintora: “Noturnos”. Repete, aqui, a série que conquistou o público e a severa crítica carioca, no final do ano passado, na Galeria Bonino.

[...] Foi vivendo o cotidiano das avenidas de Copaxabana, onde morava a apenas uma quadra do mar e só via janelas ao seu redor, que Anavaz encontrou inspiração para os seus “Noturnos”. Boa parte da série, mostrada simultaneamente no Rio e em São Paulo, em 88, era um remake do tema explorado, dois anos antes, numa individual em Brasília. Naquela ocasião, a artista fazia um melancólico relato do seus reencontro com as raízes nordestinas. Sua interlocutora era Olinda, que via transfigurada, através de imagens adivinhadas pelas janelas.

Anavaz retoma este caminho para mostrar, agora, outros noturnos. Mais introspectiva, menos contestadora – uma marca de que se impregnou sua pintura inicial, nos anos 70 -, profundamente observadora, delineia uma ponte entre a sua palavra e a palavra do outro. Por isso, no silêncio, ouve vozes. Na penumbra, vê gestos. No vazio humano, abriga o calor de corpos, colhendo aqui e ali, impressões digitais. Vez por outra, espalha um rastro de cheiros e sabores. E dos ocres, faz emanar a luz.

Indiferente à advertência do poeta – Não busques/a companhia de ninguém/não te inclines/sobre dor alguma/não participes da alegria alheia (*) – adentra o mistério de janelas entreabertas para encontrar, num sutilíssimo exercício de voyeurismo, o homem e a sua alma. O homem e a sua grande, trágica e inexpugnável solidão.

Como AnaVaz, restamos cheios de perguntas diante da hábil sensualidade de suas telas. O que ela espreita pelas janelas é a vida que corre lá fora? Ou é pura e acintosamente o espelho onde se mira e se desnuda?

 



 

PAULO CHAVES
Artes e Artistas
Diário de Pernambuco/PE
11 de maio de 1989

 

A VISÂO DE ANA VAZ
(Excertos)

Nos quadros em exibição [...] Ana Vaz opta por falar do ser humano utilizando-se do seu habitat registrando sua presença física apenas aqui e ali, de raspão, como uma sombra enigmática em meio aos objetos que o cercam. A hora é a noite e os amarelos e laranjas da iluminação artificial filtram-se através de janelas e persianas semifechadas, cada quadro uma janela.

A pintora posiciona-se como observadora dessas vidas misteriosas, que se revelam sorrateiras e solitárias em meio aos raros e difusos objetos que lhes são pertinentes – vaso, televisão, lâmpadas de cabeceira, cortinas – todo vislumbrado através das vidraças, das persianas.

[...] Para falar do “ser encarcerado” a artista despoja-o de todo supérfluo, submete os cômodos de apartamentos ou casa em que ele vive a uma geometrização constante, faz com que os focos de luz e suas projeções confiram uma dimensão de solidão e mistério às suas existências (invisíveis quase sempre). Observadora algo indiscreta de janelas alheias, não é o vulgar cotidiano ou o clímax de paixões que a artista constata em suas telas – como o herói do filme A janela indiscreta, de Hitchcock. [...] O que ela constata é, em suma, o ser interior, a solidão nossa de cada dia que se espraia nesses espaços fechados, à luz difusa dos abajures envoltos pela escuridão da noite.