Favelas do Meu Recife


MARCO POLO
Jornal do Commercio/PE
Caderno C
21 de setembro de 1996

 

 

 

 

ANA VAZ MOSTRA A SUA VISÃO DAS FAVELAS
(Excertos)

 

A artista plástica pernambucana Ana Vaz inaugura, na próxima quina-feira, dia 26, [....] mais uma exposição individual. O título resume a temática da mostra: Favelas do meu Recife.

São 20 quadros de proporções médias e grande, batizados com nomes como Moradias, Bananal, Recanto, Vida Severina, Procissão, Barranco, Dia de festa, Maré Alta e Morro da Conceição. Como dá para perceber, a artista procura enfocar diversos aspectos da vida dos menos favorecidos pela sorte: festas, religião, condições de moradia, paisagens.

A artista conta que da rua onde morava quando criança, em Casa Amarela, dava para ver a roda gigante iluminada da festa de Nossa Senhora da Conceição: “olhei para o morro e lá estava ela – roda em forma de mundo, mandala iluminada me chamando. Eu decidi: queria ir pra lá! E nada me demoveu. Nem surra, nem castigo, nem noite em claro. No dia seguinte fui mandada, finalmente, para a festa. Subi na roda gigante. Mas era diferente. A tarde, sem suas luzes, tudo o que pude ver foram imensas engrenagens em ferro e madeira. Não sei exatamente o que aprendi aí. Mas hoje eu sei que há distâncias entre a realidade e o sonho. Pintar essas favelas faz parte disso”, confessa. [...]

 

 


 

KÉTHULY GÓES
Diário de Pernambuco/PE
Caderno Viver
26 de setembro de 1996

 

 

A COR DA MISÉRIA
(Excertos)

 

 

A realidade dura e triste de quem se aventura a morar em palafitas e barracos, nas muitas favelas que se espalham nas grandes urbes, serviu de motivo para a nova coleção de pinturas da artista plástica Ana Vaz. Sob o título Favelas do meu Recife, ela apresenta uma série de trabalhos em óleo sobre tela (obas únicas ou dípticos) [...].

O entusiasmo pelo tema cresceu e suplantou o temor de não chegar ao público. A partir de registros fotográficos, ela viu de perto as cores, a luz, as formas e a gente das favelas. Pelas mãos dos fotógrafos anônimos, chegou aos mangues e visitou invasões. Correu atrás da estética que sempre lhe impressionara.

“Foi através das objetivas deles que pude descobrir nos postes das ruas nossas cruzes, nas poças de lama nosso pranto, nos varais estendidos, mil bandeiras”, poetiza no texto de apresentação. Ela descreve o novo tema como uma realidade humana e social triste, mas de uma beleza plástica incrível, que possibilita a recriação de planos e personagens.

[...] Ao longo de 20 anos dedicados à arte, Ana Vaz sempre associou seu talento à pintura e, quase sempre, a cidades que serviram de motivo para a representação. O mundo subterrâneo dos metrôs, os transeuntes anônimos, as luzes da noite e paisagens sob o sol têm marcado a trajetória de sua pintura.[...]